Leitura: Proteja seu Coração - VI
- 10 de out. de 2016
- 9 min de leitura

Autor: Sabrina de Ferreira
Publicação: Janeiro de 2016
Tema central: Drama, ação, filho adotivo e hospital
Páginas: 37
VI
“Alô?”
“Espero que tenha achado um advogado.”, rezou Ishmael. “Chegou o momento.”
“Não!”, o pânico estava na voz de Christopher. “Ainda está cedo, Ish.”
“Você sabe que não está.”, fez-se uma pausa. “Não importa como, ainda serei seu amigo.”, reconfortou-o.
“Não há advogado.”, inconsolável, Depp tentou achar uma desculpa para adiar tal insanidade. “Ainda está cedo!”
“Tchau Chris. Amo Você.”
“Não desliga! Ainda está c...”
O telefone-celular de Christopher Depp ficou mudo. Tudo o que Ishmael tinha para comunicar a seu melhor amigo, já havia sido dito. Com o celular ainda parado próximo ao seu ouvido direito, com sua outra mão pressionando o volante com força, Depp estava desolado. A primeira de muitas lágrimas desceu seu rosto até encontrar seu colo, o terno do mesmo começou a pinicá-lo agora. Um vazio antecipado cobriu seu coração de amargura e de uma tristeza inacabável. Ele sabia o que precisava fazer agora, só não estava disposto a continuar com a sua parcela de culpa gratuita que Ishmael o oferecera há tempos atrás. Pensando nisso, após o sinal de trânsito abrir e Depp ver-se em uma via de mão dupla, uma levando ao famoso hospital Albert Klein e outro que seguia caminho ao apartamento de Annabeph, que deveria estar trabalhando agora e, como as águas-vivas tem o lugar como residência, logicamente Ishmael estaria no apartamento.
Um giro rápido no volante, depois de observar o semáforo verde, decidiria o rumo que Christopher Depp teria de tomar. Obedecer ao seu melhor amigo, pegando com um sorriso no rosto a sua parcela de culpa gratuita, ou desobedecê-lo na tentativa de salvá-lo de um grande erro mal pensado do próprio. Quaisquer que tenham sido seus pensamentos naqueles poucos segundos, enquanto carros a sua retaguarda buzinavam pedindo licença, não faziam mais tanta diferença, uma vez que o mesmo já estava partindo a sua esquerda, rumo ao apartamento da namorada de Adias. Suas lágrimas eram dolorosas e pareciam queimar a sua pele a cada momento mais em que ele lembrava-se do motivo de suas quedas pelo rosto.
Enquanto isso, no apartamento que agora se tornou o alvo de Christopher, Ishmael, dentro do quarto 2202, sem blusa e sem esperanças da alma, pôs-se a ouvir um CD que recebeu de presente de sua namorada. Seu cantor americano favorito estava cantando agora.
“So I've been thinking about something/Lately I've been alive/Cos I found my reason in nothing/So I won’t close my eyes.” (Tradução: “Então, eu estive pensando sobre alguma coisa/Ultimamente eu estive vivo/Porque eu encontrei minha razão em nada/Então eu não vou fechar meus olhos.”).
Enquanto ouvia o som, Ishmael jogou todo o seu estoque de gelo que havia comprado há tempos, dentro da banheira. Voltando a sala, permaneceu de olhos fechados, Adias parecia querer sentir a música que saia do aparelho.
– Porque eu encontrei a minha razão em nada... – sussurrou para si mesmo observando a música voar a sua volta. Lembrou-se também do momento em que Annabeph o abraçou por trás dizendo ser a sua razão.
O veículo de Depp seguia velozmente até onde a Lei o deixava correr a tal velocidade. No mesmo momento em que Chris usava o seu automóvel para se aproximar de seu melhor amigo, Adias deixava com que a música rolasse pelo ar. Seguiu para o banheiro do pequeno, mas futurístico, apartamento. E depois de alguns planos e tentativas de como fazer o ato sem machucar as águas-vivas, Ishmael conseguiu por outro pequeno aquário – dessa vez um que obrigasse as pobres águas-vivas a nadarem em um apertado espaço – em cima de uma mobília marrom, que estava localizada ao lado da banheira de Annabeph. Tudo a sua volta estava pronto, menos a carta.
Em rabiscos, com letras que somente alguém que realmente o conhecia para entender de primeira, Ishmael encheu uma folha em branco, como se fosse uma tarefa fácil de produzir. Escrever era um dos talentos escondidos de Adias que ele nunca pôde fazê-lo seguir em frente pelos caprichos de um “verdadeiro homem” que seu pai adotivo queria ver, pai adotivo a qual não conseguia enxergar um “verdadeiro homem” escritor. Lembrando-se disso, Ishmael chorou, deixando uma lágrima assinar a folha por ele. A carta era integralmente direcionada ao seu pai, mas todos poderiam ler e compreender. Logo após escrever, pôs sua carta em cima da mesa na sala de Annabeph. Seguido de muitos suspiros e soslaios ao céu, na tentativa de encontrar Deus o abençoado, Ishmael atravessou sua sala rumo ao banheiro. Mas um som o fez parar.
Era o telefone fixo de Annabeph, que tocou, tocou e tocou mais um pouco. Todavia, Adias esperou cair na caixa postal, parado bem ao lado do telefone fixo e de frente ao banheiro. Antes do bipe, ele pode ouvir a mensagem gravada de Annabeph e o mesmo dizendo. “Olá aqui é o apartamento da Annabeph”, disse ela. “E de vez em quando meu.”, completou Ishmael. “Não estamos em casa, mas deixe o seu recado após o barulho estranho.” O bipe soou, deixando Ishmael um pouco desconfortável por lembrar da voz doce e calma de sua namorada, e a voz que deixava sua mensagem soou.
– Alô? – disse uma voz feminina que arrancou uma lágrima de Adias. – Você pode me ouvir? Estou voltando para casa. – Era a voz de Annabeph Cartelano. – Alô-ô? – insistiu ela, cantarolando. – Ish? – perguntou ela, tendo a perturbada sensação de que seu namorado estava em casa, mas não a atendia. – Tudo bem... Tchau.
Ainda firme sobre o que iria fazer, Christopher Depp seguia com seu carro em direção ao apartamento de seu melhor amigo, ele já se encontrava na rua do edifício, o que o dava alguns minutos para entrar e salvá-lo de sua insanidade. Talvez, se Chris não tivesse parado para pensar no trânsito qual caminho seguir, obedecer ou desobedecer, talvez ele possuísse mais alguns minutos, ou ao menos segundos. Mas, à medida que seu carro aproximava-se do asfalto, era a mesma em que Ishmael atravessava o recinto vagarosamente direcionando-se a banheira comprida. As águas-vivas ainda estavam dentro do mediano aquário em cima da mobília improvisada somente para aquele ato, ao lado da banheira. O coração de ambos estavam nas mãos, um pensava em não se machucar muito, outro pensava em não deixá-lo se machucar.
Preparando o seu próprio psicológico, tendo de afirmar a si mesmo estar fazendo a coisa certa, Adias retirou sua calça jeans larga que não possuía marca famosa, muito pelo contrário, ela não tinha marca sequer escrita. Seu cueca, que diferente da calça larga, possuía o nome de uma das marcas mais famosas no mundo das roupas íntimas, tirou-a sem remorso. Qualquer um que encontrasse por aquela porta do banheiro, que o próprio deixou aberta, iria notar as redondas e fartas nádegas de Ishmael. Nada que Depp nunca tenha visto, já que nos anos de colegial, sempre depois de um treino cansativo de beisebol com um dos treinadores do colégio Haven Hall mais incomodativo de todos, ambos, juntos a outros companheiros de time de beisebol, dividiam o enorme banheiro masculino onde todos tomavam banho agrupados.
O primeiro pé de Ishmael entrou na banheira, logo em seguida o segundo pé e então todo o seu corpo inclinou-se para trás, em meio ao gelo, tentando fazer com que o próprio de adapta-se. Se não agisse logo, poderia pegar muito mais do que um resfriado. Christopher Depp, durante o mesmo tempo, obteve facilmente uma vaga perto do apartamento para o seu veículo acinzentado escuro. Correndo ofegantemente em direção à porta, deparou-se com Carlos, o porteiro negro com seu cabelo afro oprimido pelo seu chapéu avermelhado. Este e aquele se conheciam, mas Christopher tentou passar sem que o mesmo o notasse.
– Senhor Depp, como estás? – cortejou Carlos sorrindo, com o seu inesquecível sotaque baiano.
– Bem, Ishmael está no quarto de Annabeph?
Juntamente, enquanto Christopher dialogava forçadamente com Carlos, tirando dúvidas que para Depp não eram dúvidas nenhuma, apenas certezas, Ishmael criava coragem para puxar de uma só vez o aquário para baixo. Respirou fundo, olhou para o teto e tentou mais uma vez achar Deus. De olhos fechados, ele puxou o aquário que veio a cair com total força abaixo do mesmo. O gelo na água poderia, de certo modo, atrapalhar as águas-vivas de fazerem o seu serviço, pelo menos essa hipótese passou por sua cabeça, mas rapidamente dissipou-se. A dor ficou incontrolável. Cada pequeno choque das três águas-vivas era como um soco do estômago dado pela vida.
Um grito surgiu de sua boca, mas cessou-se enquanto o mesmo tentava ajudar as pobres águas-vivas em seus trabalhos, afundando-se para dentro da banheira na tentativa de afogamento, deixando algumas pedras de gelos inteiras caírem para fora do círculo. Intensa e inexplicável, foram às palavras que Ishmael teve em seus pensamentos para descrever como era sentir uma água-viva encostada a si. Tirando rapidamente sua cabeça de baixo d’água por não aguentar a pressão da água gelada invadindo os seus pulmões, Ishmael sentiu seus órgãos gritarem que precisavam de ajuda. Choro e dor, foi como terminou a sua angústia. Infeliz, infeliz foi à feição que cobriu o rosto do mesmo quando não se tinha mais o poder de respirar. A única parte de seu corpo para fora da banheira, era o seu braço direito, com uma pequena tatuagem no pulso ainda não citada. Hai que significa “Vivo” palavra hebraica que composta por apenas duas letras, refere-se a Deus.
– Está sim, senhor. No quarto 2202, grande homem o Senhor Adias. – Carlos gesticulou para mais conversa. Christopher rapidamente agradeceu com meia palavra e um aceno com o seu dedo indicador. Andou velozmente para o segundo andar, mas o recepcionista loiro dos olhos claros, por detrás do balcão principal do apartamento, gritou:
– Senhor, temos de ligar para ele para saber se podes subir!
Sem dar ouvidos, Christopher subiu sem saber o que estava acontecendo dentro daquele quarto. A cada passo, um novo degrau a menos o distanciava de seu melhor amigo. O recepcionista, tentou dizer algumas palavras de ordem para que o mesmo voltasse e o deixasse ligar para Ishmael antes, mas foi em vão. Carlos, o porteiro negro de afro, somente fez o seu trabalho: abriu e fechou para os demais visitantes e moradores no apartamento Gol Galos. O quarto 2202 não era tão fácil de achar, já que Christopher via-se no meio dos quartos 1003 e 1004. Subiu mais um andar, chegando agora então ao Andar dos 2000. Mas a porta de Annabeph, 2202, era a última do corredor.
A porta estava trancada e a única coisa que Depp pensou em fazer foi gritar e bater desesperadamente. Enquanto isso, na recepção, Annabeph Cartelano passava com suas bolsas de compras que havia feito depois de voltar do trabalho mais cedo. A mesma iria fazer uma surpresa colunaria a seu namorado que tanto ama a sua comida, estava subindo com uma novidade que assustava até mesmo a ela: estava grávida. E depois de sua boa refeição, iria contar-lhe do modo mais romântico que a mesma pensou: dando-lhe sapatos de bebês, sapatos a qual estavam em sua mão, fora da bolsa neste momento.
– Como vai, Sra. Cartelano? – perguntou o recepcionista, mas antes de ouvir a resposta, completou: – Senhor Adias chegou mais cedo do que o esperado.
– Estranho. – comentou Annabeph pensativa. – Ish disse que resolveria situações na comunidade dos Du Vun.
– Depp também se encontra. Pedi para que o mesmo não subisse, mas ele parecia ter pressa. – o recepcionista loiro dos olhos claros revolveu contar-lhe logo, para que não haja complicações para o seu lado futuramente.
Annabeph agradeceu, mas lamentou em seu anterior por ter que fazer com que os sapatos de bebês tenham de esperar, já que a mesma não queria contar a Ishmael Adias que seria um futuro pai na frente de seu melhor amigo. Inteligente, Anna decidiu subir desta vez de elevador. Entretanto, no terceiro andar, Christopher Depp já havia consigo abrir a porta. Quase a quebrando, mas ainda assim, seus pensamentos não estavam na porta. Procurou as águas-vivas, procurou por Ishmael, mas tudo estava em pleno silêncio. Um silêncio infernal. Lembrando de como tudo iria acontecer, Christopher segurou a sua parcela de culpa gratuita na mão com medo do que poderia achar no banheiro. Andou devagar, tentando não emitir som, notando que a porta já estava aberta. Reparou também que a banheira estava completamente cheia de pedras de gelo e...
– Uma mobília antiga de Ishmael que estava ao lado da banheira. – continuou Chris seu rápido monólogo para o Doutor Bandeiras. – Parecia que não tinha ninguém dentro, mas quando cheguei mais perto, o suficiente para notar o que a mobília antiga escondia. Vi o braço de Ish para fora. – Chris chorava. – Puxei sua cabeça para cima com receio de acabar encostando em alguma água-viva e me queimar. Pensei que pudesse salvar ele... Mas ele já estava duro... Frio, talvez pelo gelo e... Azulado em torno dos olhos.
Após seu monólogo doloroso, Bandeiras mandou médicos e paramédicos urgentemente para o tal endereço, mas não deixou com que a sua curiosidade aumentasse e perguntou “Só você viu o corpo?”. Com os olhos fechados e a mente cheia de remorso e dor, Depp balançou a cabeça em negativo. “Annabeph, a namorada de Adias, estava lá. Chegou um pouco depois de mim com sacolas de compra. As compras caíram e as lágrimas dela também.”, o advogado completou sentindo achar importante “Annabeph está no carro do Sr. Depp, lamentando e tendo um momento só.”
Acompanhe o livro:
Agradecimentos e Esclarecimentos
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Epílogo
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